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3ª RELATO-SOBREVIVENTES/ LINHA DE FRENTE NO HRAUG- HOSPITAL REGIONAL DE AUGUSTINÓPOLIS -TO, EM TEMPOS DE PANDEMIA DA COVID 19

3ª RELATO-SOBREVIVENTES/ LINHA DE FRENTE NO HRAUG- HOSPITAL REGIONAL DE AUGUSTINÓPOLIS -TO, EM TEMPOS DE PANDEMIA DA COVID 19

14/04/2021 às 20h43 Atualizada em 14/04/2021 às 23h43
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Foto: Reprodução
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De fato quem realizou a leitura dos relatos I e II, e acompanha minha trajetória profissional mediante a linha de frente no combate a COVID 19 no HRAUG, creio que assim como eu não imaginava jamais a surpresa que reservava o III relato. Me perguntei inúmeras vezes se eu seria capaz de produzir tal texto, me questionei inúmeras vezes sobre os mistérios que nos envolve a vida, quem somos nós, o que há por trás de tudo isso, me refiro a percepções, sensações, intuições, presciência e etc... Por que no início da pandemia desejei tanto está na linha de frente? Apenas vocação profissional para cuidar do outro? Existia algo desconhecido ou providente? E então começava uma nova etapa, como mencionei ao final do segundo texto, fui contemplada em alcançar a tão esperada vacina, que lamentavelmente naquele momento contemplava apenas os profissionais da saúde, o que me preocupava enquanto pessoa normal, pois tudo que eu desejava era ver minha família imunizada, assim como toda a nação. E continuávamos uma rotina normal, com a sensação de que aos poucos as coisas tomavam uma proporção desconhecidas, o que outrora parecia está mais tranquilo de repente nos víamos sobrecarregados de trabalho, avistava-se um desafio gigante pela frente, não como o primeiro, quando enfrentamos o primeiro pico da doença, mais algo ainda não vivenciado e talvez até não imaginado por todos nós. Então pouco a pouco grande parte dos profissionais da linha de frente que até então ainda não tinham se contaminado, como numa espécie de efeito dominó começaram a contrair o vírus, enquanto uns se afastavam outros retornavam, graças a Deus até o momento nenhum caso de perda. Assustada, contemplava a glória de não ter sido contaminada, o contágio não me assustava, tanto quanto me assustava o risco de contaminar minha filha e esposo. E claro, com consciência de não ser melhor que ninguém, ou tão pouco imune, comecei a sentir os primeiros sintomas, e como qualquer pessoa normal pensei ser uma gripe, mesmo assim meu senso de responsabilidade me fez pedir afastamento dos setores em que atuava, tanto dos municípios quanto da linha de frente de HRAUG. Com a certificação do contágio pelo teste do SWAB tornaram-se dias tensos, horrível a sensação da confirmação, mais horrível ainda a confirmação do teste da minha filha. Nós três estávamos infectados, eu, ela e meu esposo, e ainda em agradecimento a Deus por meu filho está seguro naquele momento e distante de mim. Todos os sentimentos que temia sentir me invadiram, medo, pavor, culpa. Tentei inúmeras vezes me valer da teoria adquirida ao longo da minha formação e experiência, na tentativa de amenizar tanta angustia e pincipalmente o medo da perda. Mas como medida precoce, pelo mesmo hospital e equipe fomos acompanhados e medicados, tivemos sintomas leves comparados aos pacientes que acompanhei dentro das enfermarias, porém psicologicamente falando, especialmente eu, fiquei totalmente abalada, ainda que notoriamente consegui disfarçar para a família tamanha preocupação e sentimento de culpa. Eu sabia os riscos que corria a partir do momento que fiz a escolha de estar ali, por tanto, busquei maturidade para enfrentar o problema em questão independentemente do desfecho. Foram 14 dias de isolamento, considerei o primeiro dia de sintoma, porque sempre respeitei aos meus colegas de trabalho e então me afastei totalmente desde o princípio. Feriado de carnaval, e eu como de costume louca para ver meus pais em Axixá, mais claro que se não queria contaminar aos meus colegas de trabalho, meus pais então seriam as últimas pessoas que eu colocaria em risco. Para quem tem uma rotina corrida e ama o que faz, 14 dias em casa eram muito tempo de ociosidade, considerando principalmente o motivo do meu afastamento. Minha condição física também ficou comprometida, sentiam muita tontura e fraqueza. Foram dias intermináveis, medo da progressão da patologia, medo das sequelas. Pelo outro lado, mensagens carinhosas de texto, áudio, vídeos, houve até quem cantasse para mim por telefone no intuito de me manter com a mesma energia de sempre, demonstrações de companheirismo dos colegas de trabalho de todos os setores onde mantenho vínculo. Apesar da existência do medo, o sentimento de gratidão invadiu meu coração. Finalmente alta do isolamento, vontade de ver a cidade, de trabalhar, de ver as pessoas, e nem me referia ao toque, o abraço, mais ao direito de ir e vir, o qual só valorizamos quando não o temos, senti literalmente na pele tudo que ouvia os pacientes relatarem no contexto hospitalar. Mas a vida é mesmo surpreendente, mal me reestabeleci, recebo a triste notícia de que um cunhado em Palmas havia sido entubado, isso me trouxe uma sensibilidade descomunal, emocionalmente fragilizada volto ao trabalho, e então recebo da minha mãe uma ligação que questionava sobre os sintomas da COVID 19, intrigada retruquei com ela sobre o que sentia para estar me questionando tanto, e ela afirmando ser apenas uma gripe, que acompanhava dores nas costas e muito cansaço. Como toda boa filha me antecipei, por telefone solicitei que meu irmão providenciasse o medicamento do protocolo inicial como medida de prevenção. Em conversa em família decidimos que deveríamos investigar e olhar por tanto, o pulmão dela, que a princípio para a nossa alegria não tinha nada, porém com 4 dias e na companhia do meu pai, minha mãe retorna ao HRAUG com 40% do pulmão comprometido e meu pai que até então não mostrava tantos sintomas com 60%, ou seja, os dois foram internados dentro daquele isolamento, ali onde eu mencionei tanto não ter estrutura para cuidar dos meus. Meu mundo desabou, pelas comorbidades, idades, e sequelas advindas de outras patologias, diante de tudo que vivi ali até então eu avaliava que meus pais estavam em grandes riscos. Não bastando, o meu primo de 40 anos também é internado às pressas por termos detectado um comprometimento pulmonar de 90%. E eu me perguntava “...o que é isso que estou vivendo?” Como seria, portanto trabalhar naquelas condições? Como seria cuidar do psicológico de outras pessoas quando o meu pedia socorro? Sensação de estar no meio de um furacão em que eu não tinha forçar pra lutar contra ele, impotência, turbulência, instabilidade, sensação de beirar um naufrágio. De repente eu que busquei motivar, encorajar, alentar tantas famílias... eu me via ali precisando de tudo isso! Falar com eles como profissional de psicologia não surtia qualquer efeito, então me valia das colegas, mais doei todo o meu tempo, sendo que a partir de tais internações estive dentro daquele hospital todos os dias. Trabalhar era a única coisa que me mantinha viva e me dava o mínimo de sentimento de bem estar, certa que minha atribuição enquanto psicóloga poderia não ter efeito nos meus pais e primo considerando o vínculo afetivo, me contentava em ser apenas acompanhante deles, porém quanto aos demais pacientes com certeza eu fiz a diferença profissionalmente falando, e estive ali nos meus plantões e fora deles. Como me mantive firme? Nem eu mesma sei, mais a cada atendimento que fazia era como se isso fosse um estímulo para continuar de pé. O reconhecimento dos pacientes e familiares alimentavam a força que precisava para estar ali. E mais uma vez em grande proporção insônia, angustia, medo, pavor, um misto de sentimentos ruins, exceto o sentimento de culpa considerando que não os contaminei, porém como e onde se contaminaram era o de menos naquele momento. Eu só queria eles bem, e fora daquele hospital, eu só queria a segurança de que meus familiares não estavam em risco. Eu até poderia citar para a “minha surpresa”, porém minha experiência e meu coração dizia que meu pai poderia evoluir pra tubo a qualquer momento, e então um dia ao chegar bem cedo me deparo com a cena que eu menos gostaria de ver, ao olhar para a sala de estabilização vejo meu pai no tubo! Mais uma vez desabei em prantos, no repouso chorei incansavelmente, eu não consegui chegar perto dele, criei resistência para vê-lo tão de perto, e eu o olhava de longe e sempre que o fazia não continha as lágrimas. O fato é que eu estava de plantão naquele dia, e eu precisava trabalhar, além de precisar trabalhar eu não poderia deixar transparecer tal situação para minha mãe, considerando que essa informação poderia fazê-la rebaixar. Antes do meu pai ir a tubo, o amor dos dois era a coisa mais linda de se vê naquela enfermaria, o cuidado um com o outro era tocante para qualquer profissional, minha mãe não descansava ou dormia porque passava a noite cuidando do meu pai. E então começamos uma batalha por vagas na UTI, até então, meu pai permanecia numa sala de estabilização na ventilação mecânica e sem o conhecimento da minha mãe. Deus por meio de inúmeras pessoas, providenciou tudo, e logo surgiu tal vaga. Visitar meu pai na UTI fazia também parte da minha rotina mesmo não sendo lá o meu setor de trabalho. Não bastando o quadro do meu primo naquele momento também se agrava, porém Deus logo providenciou uma vaga na UTI, novamente o temor de que ele também fosse a tubo também me invadia, jovem demais, um exemplo de filho neto, irmão. E eu me questionava que furacão e este que me tomava por inteira. A família toda em oração, chorávamos pelo celular, por áudios, o sentimento de cansaço me invadia, eu precisava dormir e não conseguia, minha cabeça não descansava, minha mente não relaxava, se me afastasse alguns minutos virava refém do telefone, os exames laboratoriais da minha mãe todos alterados. E eu me via diante daquele desespero, medo dela também evoluir para tubo. Eu não teria forças para vê-los na mesma situação. E eu orava incansavelmente pela vida dos 4, cunhado pai, mãe e primo, chorei aos pés do Sr. Inúmeras vezes e o questionei também por diversas vezes. Em uma oração referente ao meu pai que representa maior risco naquele momento eu disse... “Senhor tu conheces meu coração como ninguém, ao longo da minha vida sempre me preocupei em fazer o bem, sempre me coloquei no lugar do outro, sempre busquei ajudar, a humildade sempre foi e sempre será uma das minhas maiores virtudes, as tuas escrituras diz que Jesus de Nazaré andou por toda a parte fazendo o bem, não me recordo qual o versículo ou livro, mais por onde ando é isso que procuro fazer senhor, tenho tentado seguir os teus exemplos embora não viva dentro da igreja, tem misericórdia de nós precisamos do meu pai, nós precisamos que ele volte para casa, porque ele “é o meu pai”... a quem tanto amo, de quem tanto me orgulho, a quem devo todos os valores que tenho... Chorei incansavelmente naquela madrugada. E então como uma espécie de luz ao fim do túnel tudo foi clareando em minha mente, é como se ele me mostrasse nitidamente o que eu não conseguia enxergar. Em forma de questionámento inúmeras perguntas e respostas vieram à minha mente... Porque a oração tem que ser baseada no que eu quero? Ou no que nós familiares queremos? Qual a explicação pra tanto desejo de estar na linha de frente desde o princípio? Meu pai será que quer o mesmo que nós queremos? 13 anos sequelado de AVC sofrendo! Quantas pessoas tiveram o privilégio de cuidar dos seus pais mediante a contaminação da covid 19? E naquele momento senti uma leveza em meu coração e percebi que minha oração estava errada, meu jeito de pensar estava errado, coincidentemente conversando com minhas irmãs, falaram na mesma linguagem e então optamos por mudar o roteiro das orações. Entendi que Deus sabe de todas as coisas e por caminhos misteriosos sempre me conduziu ao discernimento, passei então a pedir ao senhor que fosse feita a sua vontade e que a sua vontade fosse o melhor para o meu pai. As visitas da UTI sempre foram muito sofridas, ver ele naquela condição me incomodava muito, todas as vezes em que estive lá o toquei singelamente, reforcei o meu amor por ele e de toda a família, agradeci por ter sido o melhor pai desse mundo. Em contrapartida sempre foi muito difícil esconder da minha mãe a real situação do meu pai. Se me questionarem profissionalmente se estava agindo corretamente por esconder dela a realidade, eu diria que “não”, mais eu não podia colocar em risco a saúde da “minha mãe”, era sofrimento de mais para correr o risco de ter os dois na mesma situação. Então depois de 3 dias na UTI recebo um telefonema para uma conversa com o médico. Lamentavelmente a pior notícia que eu podia receber. Meu pai veio a óbito, naquele momento uma solidão jamais vivida invadiu meu peito, nunca me senti tão sozinha na vida, minhas irmãs em Palmas, meus irmãos em Axixá, meu esposo viajando, minha mãe na enfermaria, e não tinha ninguém da família para abraçar, pior que isso, nem os colegas eu podia abraçar da forma que gostaria. Além da dor da perda, a responsabilidade de dar a notícia aos meus familiares me trazia uma aflição também insuportável. Na presença dos 5 filhos enterramos o nosso pai por volta das 2h da madrugada do dia 07 de março de 2021, debaixo de chuva, num breu total. Muito triste saber que um pai de família, amado por tantas pessoas, exemplo de cidadão foi enterrado nessas condições. Me angustiava aquele sereno, mais me apegava ao fato de estarmos todos ali, os 5 filhos se despedindo dele e proferindo as nossas últimas palavras, não sei se por ser a primogênita das mulheres e por isso um sentimento maternal, ou se por ter acompanhado tudo tão de perto, mais o fato é que não sofria apenas por mim, eu sofria também  por presenciar a dor dos meus irmãos. Infelizmente o sofrimento não parou aqui, com o passar de alguns dias meu primo tão jovem vai a tubo, é extubado, reintubado, muita angustia, muito sofrimento ao transmitir as informações nos grupo de família. Para aliviar um pouco tanta dor, minha mãe tem alta, logo após meu cunhado também. No entanto, mais uma vez passamos pelo processo de perda, meu primo vai a óbito. Dor indimensionável para toda a família mais uma vez, luto interminável. Cada dia mais me convenço da importância que devemos dar aos que amamos, somos uma família afetuosa, unida, e ainda penso que não estivemos juntos o suficiente, fizemos o suficiente, ou demostramos o nosso amor o suficiente. Como diz um trecho da musica de “Jota Quest” creio que devemos “...Viver tudo o que a vida tem pra nos dar, saber, saber que em qualquer segundo tudo pode mudar...”, ...porque daqui, daqui, “só se leva o amor”. E para a conclusão deste terceiro relato preciso esclarecer aos que me questionaram sobre “o que me fazia ser tão forte”, a princípio quero afirmar que também desconhecia tamanha força, e como costumo dizer, somos uma caixinha de surpresa, mais também acredito que ninguém sabe a força que tem até que sua única alternativa seja “ser forte!”. Agradeço aos interessados na publicação!
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